— Você está triste hoje. — aquilo não era uma pergunta. Poucas vezes fazia perguntas.
No máximo para perguntar o que ele estava achando do tempo. Sim, sim, o tempo era muito importante. Não o tempo meteorológico, todavia. O tempo cronológico, sim.
— Eu sempre estou triste — retrucou, apesar de sua voz não ser mais que um sussurro e seu tom ter se alterado tanto quanto uma pedra jogada em meio as ondas altera seu curso.
— Hoje é diferente... — toda vez que falava, notava-se que seu timbre era rouco e vazio. Falta de emoções. Já se acostumara com aquilo. Não ligava mais. No início era difícil, mas ele lhe ensinara a lidar com aquilo... Com a Maldição, quer dizer. — Você está... mais triste... do que o comum...
Depois de pronunciar toda a frase pausadamente, ela virou a cabeça na direção dele.
Uma garota e um homem, sentados na ponta de um dos telhados longos e antigos que a cidade de Londres possuía. Era o que você veria. Qualquer um – ouso dizer que até mesmo um caolho – poderia vê-los ali. Bastava olhar para cima. Muito simples. Mas para criaturas tão apressadinhas quanto os humanos, olhar para cima seria perda de tempo. E tempo é dinheiro.
Ao pensar nisso, a garota fez uma careta; ela não gostava da nova definição que o tempo (seu, seu precioso tempo) havia ganhado nas mãos daqueles macacos desenvolvidos. Aliás, por que tinham de ser os macacos?! Macacos eram (e são) gentis demais para que os humanos tenham vindo deles...
— É só impressão sua.
Ela desfez a careta e dessa vez ergueu uma das sobrancelhas, franzindo a testa. No entanto, seus olhos cor chocolate-amargo (tão escuros que não se via a íris), continuaram sem demonstrar reação. E sua voz também.
— Eu sei o que eu vejo. E isso em você não é só impressão minha.
O homem finalmente voltou seus olhos na direção dela. Os dele eram claros, cor mel de abelha, ou então do ouro recém-tirado das jazidas. Eram belos. E também tristes.
— Você é só uma criança no fim das contas. — respondeu depois de vários segundos em silêncio, tornando a encarar a grande torre com o relógio, que os humanos chamavam de Big Ben.
A garota não disse nada. Não devolveu aquela frase que podia-se considerar até mesmo cínica – isso se ela não soubesse quem ele era. O que ele era.
Ela ficou quieta, escutando o mundo lá embaixo. Seus ouvidos melhoravam a cada dia, e agora ela escutava o sussurro dos prédios antigos. Diziam que ela estava péssima, e que precisava de férias. A garota concordava; sua aparência nunca fora das melhores, mas ultimamente estava um tanto quanto preocupante.
O vento não estava suave, muito pelo contrário; as rajadas de ar, ferozes, jogavam com força a barra do casacão negro do homem para trás, assim como bagunçavam ainda mais o cabelo curto e escuro da garota. Ela tirou um gorro de dentro de um dos inúmeros bolsos de sua bermuda cargo, e colocou-o na cabeça, escondendo aquele amontoado de fios estranhos, da mesma cor que seus olhos inexpressivos. Se seu amigo fosse uma pessoa comum, talvez tivesse até suspirado de alívio, por que os cabelos dela eram horríveis, cortados de mal-jeito por alguém de mão frouxa com uma tesoura cega. A julgar pelo modo como estavam aparados, talvez ela mesma o tivesse feito (cortado, quer dizer). Mas, bem, seu amigo não era uma pessoa comum, então não ligava para aquele ninho de rato na cabeça da garota.
Após ter se encolhido dentro da sua jaqueta de couro, ela começou a balançar os pés para frente, como se estivesse medindo suas forças contra o vendaval, que sempre tornava a empurrar suas panturrilhas para trás, finalmente a garota comentou:
— Ah, cara. Como você é estúpido.
Um som ouviu-se vindo do fundo da garganta do homem de cabelos encaracolados e pretos, presos em um rabo-de-cavalo baixo, que ia até os ombros (as madeixas dele eram muito bem aparadas por sinal). O som deveria ter sido uma imitação de risada. Mas era péssimo. “Horrível” na verdade, seria o adjetivo melhor para se usar. Para ter uma idéia era parecido quando se está falando com alguém no celular, e a ligação está cheia do barulho irritante da estática. A voz saía de um jeito da boca da pessoa e entrava de outro no ouvido de com quem se falava.
Foi como eu disse.
Horrível.
— Por que eu sou estúpido? — ele questionou depois de ter desistido de tentar rir, e a menina balançou a cabeça, reprovando seu ato; ela sabia que ele não conseguiria fazer aquilo. Ele mesmo sabia que jamais conseguiria fazer aquilo. E mesmo assim tentara. Agora, sua cara estava pior do que antes.
— Por que você é! Você é... Deus do Céu, Pierrot, você é uma besta. Uma besta ao quadrado, elevada no cubo da estupidez, se é que isso é possível! — você se enganou. Certamente achou que haveria alteração. Mas não. Não houve alteração na voz dela. Acredite, ela era perturbadora pessoalmente. Fria e impassível. Sempre. Ou quase.
“Pierrot” mudou sua expressão de melancólica para zangada e resmungou:
— Eu não gosto que você me chame assim. Sabe que esse não é o meu nome.
— Mas eu gosto. E vou continuar chamando. Me obrigue a não fazê-lo.
A expressão em seu rosto era desafiadora, porém os olhos... acho que não é necessário eu dizer como eles estavam, não é? “Pierrot” a observou mais atentamente enquanto travavam uma batalha imaginária, que existia apenas em suas cabeças.
O rosto da garota não era bonito, muito menos se destacaria na multidão – pessoas esquisitas aparecem todo dia por aquela cidade, em meio a multidão, fechadas em seu próprio egocentrismo. Exceto por aquele cabelo curto, repicado e mal-cortado, agora escondido por um gorro vermelho com o desenho de um homem de neve acenando – aí sim, todo mundo na rua olharia.
Ela era bem infantil. Rosto redondo, queixo pequeno e bochechas “boas para apertar”.
Ele notou cada mísero detalhe nela. Suas sobrancelhas arqueadas, seus lábios pintados de preto que nunca tiveram a chance de formar um sorriso, sua pele incrivelmente clara – não que fosse um claro admirável, ela mais parecia uma doente de Aids do que uma albina –, suas olheiras escuras que eram o ponto de partida de várias veias roxas e verdes (ao menos as visíveis), descendo como lágrimas pelas maçãs do rosto, escorrendo pelo queixo e indo para o pescoço, terminando na gola de sua blusa cinza...
E os olhos.
Sempre os olhos.
Não se podia deixar de notá-los, nem mesmo que quisesse.
Talvez fosse a cor, ou a falta de sentimentos, ou ainda por que ele achava os olhos dela encantadores...
“Pierrot” suspirou e parou de fitá-la; os orbes castanhos eram intensos demais para se encarar por muito tempo. Principalmente por que ela nunca piscava. Nunca.
— Você perdeu a sua moral — ela continuou, recolhendo os braços contra o peito e cruzando as pernas em cima do parapeito do prédio, como sempre fazia ao meditar — Quando vai aprender que sua preciosa “Colombina” te deixou? Ela preferiu desistir de você, meu caro. Agora apenas procura um “Alerquim” que possa sustentar a ela e seus caprichos fúteis.
— Ela não é do jeito que você acha que é! Ela é diferente! Ela é maravilhosa! — ele havia se levantado, furioso. Ficou batendo os pés nervosamente contra a fina murada de cimento. Um passo em falso e cairia com tudo na calçada. Não morreria, mas iria doer bastante. — Ela é...
A garota o cortou rispidamente. — Ela é humana.
— E DAÍ?!
“Será que vai ser sempre assim?”, indagou-se mentalmente. Ela não tinha jeito para ajudar as pessoas. Aliás, não tinha jeito para ajudar ninguém. Nunca compreendeu por que estava ali, e se não fosse a companhia de “Pierrot”, era bem capaz de já ter saído de lá e ido para um lugar menos frio. Quem sabe o Texas. Sua simpatia por humanos não era maior de a cabeça de um alfinete, mas ela gostava dos texanos, com seus chapéus de cowboy e o sotaque engraçado daquele povo. Bem diferente do seu sotaque que não tinha idéia de onde diabos vinha!
— E-eu amo ela está bem!? E-e-eu a amo mais do que tudo! Sempre que eu a vejo é como se ela iluminasse a minha vida, e o que antes era preto-e-branco torna-se colorido! Eu nunca tive essa sensação, por que está tentando estragar isso?...
Silêncio.
Pela primeira vez, ele explodiu. Mas explodiu, de verdade.
— ENTÃO É ISSO?! EU ESTOU TE FAZENDO UMA PERGUNTA, CAROLINE, E VOCÊ ME DÁ O QUÊ DE RESPOSTA, HEIN? HEIN?! SILÊNCIO! É ISSO O QUE VOCÊ ME DÁ, CAROLINE! SILÊNCIO!
Ele tornou a se sentar, dessa vez de costas para a cidade, apoiando os cotovelos nos joelhos e estes por sua vez, seguravam a cabeça, em uma tentativa frustrada de se acalmar e não chorar. Não, não choraria. De novo. Só o que “Pierrot” havia feito desde que sua amada havia lhe deixado, era chorar. Chorar e chorar repetidamente, metodicamente, como um estranho distúrbio mental, uma espécie de ritual que se não fosse seguido poderia destruir seu mundo (sem cor e nem vida, mas ainda assim seu mundo).
A garota – Caroline, seu nome é Ca-ro-li-ne – permaneceu calada, esperando a crise de histeria do seu melhor (e único) amigo, passar. O que aconteceu mais ou menos uns cinco minutos depois. Tempo suficiente para ela reformular uma nova pergunta.
— Qui prodest? “A quem isso serviu?” De que adianta amá-la tanto se ela não corresponde?
— Não se escolhe quem ama, Caroline. — ele fungou em um lenço tirado de seu sobretudo escuro, para logo em seguida guardá-lo mais uma vez no bolso interno do mesmo, fechando-o, parecendo se dar conta do quão estava frio e de que aquela blusa listrada não o protegeria do vento. — É apenas...
— Humanos não escolhem quem amam, Johann. — ela o chamara pelo nome e seu tom era duro; em suma, a coisa era séria. — Nós somos mais poderosos que deuses e apenas o cara de lá – ela fez um gesto vago, apontando para o céu escuro e coberto de nuvens – pode conosco, com nossa força. Nós não amamos, Johann. Desejamos. “Desejar inegavelmente” é o máximo que podemos atingir. Mas amar? Jamais. É perigoso demais pra ambos os lados envolvidos.
— Você não deseja! Eu não desejo! Eu amo e você...
— Eu não tenho paciência para desejar. Não mais. Já desejei muito, você sabe, quando eu era mais nova, mais inexperiente e mais burra. Estou velha. Posso ter apenas 12 anos de corpo, porém minha alma tem mais de três mil anos. Cansei de desejar. Desejos só levam a dor de cabeça e espalham ainda mais merda por todo esse planeta idiota. E o amor é para tolos. Começa como um sentimento puro que une duas pessoas e no final torna-se apenas uma ligação indesejável entre dois estranhos que dividem a mesma cama.
Vinte andares a baixo, um grupo de adolescentes no colegial passou cantarolando alguma canção natalina, falando sobre se drogarem próximo ao Embankment, no entanto, nem Caroline nem Johann lhe deram atenção; eram só mais Perdidos para o Mestre. Apenas isso...
— Entenda, Johann...
O mundo continuava lá embaixo. Derretendo-se, apodrecendo. Tudo remexia-se e formava uma massa escura, grudenta, com cheiro de esgoto. “Como era mesmo a música?”, a mente dela procurava em seus “arquivos especiais” pela melodia triste que ouvira hoje de manhã, ao acordar em seu pub com vista para uma parede de tijolos vermelhos. Ao mesmo tempo, tentava tirar aquela mortal estúpida da cabeça de seu quase-ignorante/inocente amigo.
— Nemo dat quod non habet. “Ninguém dá o que não tem”. Você não poderia fazê-la feliz, pois você não tem a felicidade em suas mãos, querido. Esqueça. É a melhor coisa a fazer.
As lágrimas escorriam livremente pelo seu rosto agora, fazendo-se visíveis por serem negras graças ao lápis de olho. Ele não ligava. Caroline não se importava com suas demonstrações de fraqueza e covardia. Era uma boa ouvinte. Uma boa conselheira. Pena que não entendesse o que ele sentia, onde ele queria chegar com aquela conversa.
E enquanto isso, ela lembrou-se da música e agora sussurrava um pequeno trecho para si mesma:
Send a heartbeart to
The void that cries through you
Re-live the pictures that have calmed the past
Seu ritmo era lento e triste, mas em nada tinha haver com o do cantor. Só soava mais baixo e mais seguro de si. A música parecia ter sido escrita para aquele momento.
— Isso foi bonito. — falou calmamente o homem ao seu lado.
— Foi.
— Onde escutou?
— No rádio da minha vizinha prostituta. Ela ouve as notícias logo cedo, mas parece que passou da hora hoje e ela só pegou a parte das canções...
— Continue. Estava... muito bom...
Então, atendendo a seu pedido, ela prosseguiu:
For now we stand alone
The world is lost and blown
And we are flash and blood disintegrate
With no more hate
A música falava sobre um mundo mal, um mundo em que as pessoas haviam mudado. O cantor parecia conversar com alguém sobre tudo aquilo, indangando sempre se onde seu ouvinte estava era um lugar melhor, com luz. Ela seguia naquele ritmo nostálgico, infeliz e deprimente, até o último trecho que era o preferido de Caroline antes que o refrão tornasse a ser repetido.
Time has stopped before us
The sky cannot ignore us
No one can separate us
For we are all that is left
The echo bounces off me
The shadow laws beside me
There’s no more need to protect
‘Cause now I can begin again
Com o término da canção, o silêncio pairou entre eles, ardiloso como uma meretriz e pesado como uma dona-de-casa obesa. Não foi constrangedor, e sim... ridículo.
— Então? — ele decidiu acabar de uma vez por todas com aquilo.
— Superavit, Pierrot? “O que sobra, Pierrot?” Essa discussão que acabamos de ter não resultou em nada, se era isso o que você queria ouvir com o seu simplório “então?”. Não serviu para nada tudo isso. Apenas ad eximere tempus, “para gastar tempo”. E você sabe que eu não gosto de gastar tempo.
Como se quisesse acentuar suas palavras, ela levantou a manga da jaqueta de couro, exibindo vários relógios de pulso, todos eles com os ponteiros andando, parecendo estarem bem mais apressados que o normal, marcando horários diferentes, uma para cada lugar do mundo.
— Eu sei. Você “como a guardadora do tempo deve tomar conta do mesmo, pois sem você, o tempo desandará e a vida no mundo, um verdadeiro caos se formará” — disse repetindo as mesmas palavras que ele ouvia quase sempre saírem da sua boca. — Nós ainda não terminamos nossa conversa, porém.
— O que ainda temos para conversar, me diga? Não, eu já cansei. Eu vou embora daqui. Vou ir para o aeroporto e comprar minha passagem para um lugar bem distante, do outro lado do mundo, a América. Cansei dessa droga de lugar, tão frio, tão morto...
— Como nós, não é?
— É. — Caroline hesitou e desde que a conhecia ela nunca hesitara. Pelo visto suas palavras a haviam pego de surpresa.
Pela primeira vez.
E saber daquilo, fez Johann sentir que talvez ainda houvesse esperanças, que talvez ainda pudesse resgatá-la do buraco repleto de trevas em que ela tinha se atirado sem nem ao menos pensar duas vezes no que aconteceria ao seu redor.
— Eu vou com você. — anunciou quando ela abriu a porta que levava para as escadas do prédio.
— Você não gosta de Londres? Dessa sua cidadezinha malditamente britânica e politicamente (aparentemente) correta? Para onde eu vou os humanos são mais selvagens que aqui, e bem piores. São verdadeiros porcos imundos.
— Então por que está indo se eles são desse jeito? Você os detesta por serem dessa forma, então por que não vai se isolar em algum lugar inabitável, como a Antártida?
A sola das botas de ambos estalando nos degraus podia ser ouvida com clareza entre os curtos intervalos de tempo que se dava entre uma resposta e a outra.
— Eu não tenho nada contra comer coisas fast foods, não se preocupar a todo instante com a hora do chá e ouvir o mugido das vacas assim que acordar.
— Texas?
— Texas.
— Dizem que o nascer do sol é muito belo por lá.
— Estou pouco me lixando para o sol. Eu só quero sair daqui.
— Cansou de bancar “a senhora do tempo”?
— Não. — ela pensou um pouco e depois disse: — E você? Cansou de ser o “senhor da tristeza”?
— Não. Nós nascemos para isso, Caroline. Não temos outra opção. As pessoas vão se desfazer em pó e nós apenas observaremos tudo passivamente, sem nada poder fazer. E depois, nosso destino será pior que o delas. Nós somos os piores maus da raça humana, Caroline: a tristeza e o tempo. Nós consumimos tudo o que há de bom e destruímos sem nem nos dar contas. É o que fazemos. Somos assim. E os humanos são só nossos brinquedos. Eu sempre pensei dessa forma, não vou ser hipócrita a ponto de negar. No entanto, desde que eu conheci a Jenny, essa visão desapareceu. Eu não quero mais brincar.
— Eu nunca quis isso, você sabe. Pare de me acusar.
— Não estou acusando você. Não por causa disso. Tente compreender, pelo menos uma vez, Caroline: eu a amo. Ela é a minha deusa. Se ela não fosse tão deprimida, cega e arrogante, seria a mulher mais perfeita de todo esse mundo!
— Não existe humano perfeito, Johann. Nunca existiu. Se eles fossem perfeitos seriam...
— Seriam como, minha cara? Seriam como nós? Rá! Isso seria irônico, por que a única coisa que nós com toda certeza não somos é perfeitos. O que nos diferencia deles, é o fato de que vivemos para sempre e temos poderes. Mais nada. Somos deuses humanos demais.
Viver... Ela estava ocupada demais formando uma fala de contra-ataque para corrigi-lo e dizer que eles apenas “existiam”. Por que, viver... Sinceramente, eles tinham tudo ali, menos uma vida.
— Então sua “Colombina” seria mais perfeita que nós, se notasse que pode ser boa?
— Exato. Mas isso não vale de nada agora, não é mesmo? Eu desisti. Você me fez enxergar que não vale à pena tentar andar sobre toda essa areia movediça.
Ela estancou no último degrau da escada e tirou seu ridículo gorro com o desenho do homem de neve sorridente, passando a mão por uma mecha incrivelmente curta de seu cabelo.
— O quê? — ele parou e abriu os braços na frente dela, como se dissesse “Você venceu! Quer mais alguma coisa?”. — Está esperando o quê?
— Você... — ela puxou um dos chumaços que enrolava no dedo com força demais, e este acabou sendo arrancado. Aquilo ia doer mais tarde. — Você não pode estar falando sério.
— Sobre...?
— Porcaria, Johann. Você sabe sobre o que é!
— Ah, quer dizer por eu ter perdido a esperança em nós dois? — seu tom de ironia, mudou para um de cansaço, como alguém que não aguenta mais repetir a mesma coisa para um bebê ignorante. — Eu cansei. Como você mesma disse. Eu... cansei! De que adianta eu ter esperança se você não tem? Eu não posso ter esperança por nós dois, Carol. Não posso. Não dá certo. Eu preciso da sua ajuda!
— Johann, os humanos estão acabados, isso eu entendo, mas você... você ainda está aí, ainda há esperança pra você. Você não precisa afundar nessa droga de areia movediça! Ainda há chance para você. Olhe pra eles, mas que droga, olhe para eles!
Ele havia aberto a porta de madeira do edifício, então foi fácil achar um bom exemplo do “fim da raça humana”, mesmo que fossem quatro e meia da manhã. Ali, um grupo de rapazes na faixa etária dos vinte anos espancava um travesti.
Um alto e moreno socou sua barriga, enquanto outro de blusa azul deu-lhe uma rasteira, fazendo o travesti ruivo, usando vestido de seda, cair de costas no chão. A nova posição da vítima propiciou uma boa chance para o terceiro de cabelo preto e com cavanhaque pudesse tirar um canivete do bolso e pressioná-lo contra o seu queixo, enquanto o pé mantinha firme bem em cima dos seus seios postiços.
— Egoístas, preconceituosos, viciados, avarentos... — ela sussurrou, seus olhos inumanos pregados na cena. — Não se importam com os sentimentos de ninguém além dos seus próprios. Você sabe disso. Sua adorada “Colombina” foi assim...
— Sempre há uma segunda chance.
Johann pousou a mão no ombro dela e Caroline sentiu a onda. A onda era mais ou menos como estar mergulhando no fundo do oceano, e começar a ser levado para baixo. Não que fosse ruim, por que não era. Não era necessário respirar, então não tinha agonia. Quando se atingia o solo arenoso e coberto de algas marinhas, anêmonas e rochas, vinha a erupção, algo muito semelhante a ser sugada por um canudo gigante e atirada em outro lugar completamente diferente.
Ela e o “Pierrot” haviam retornado no passado. Agora encaravam uma visão particularmente comum: filhos e pai, jogando futebol.
Caroline reconhece os rapazes que agrediam o travesti. Em determinado momento, um dos garotos tropeça e começa a chorar, pois havia machucado a mão na queda. O pai se aproxima, dá-lhe um tapão na nuca e diz:
— Filho meu não vai ser viadinho que fica chorando! Anda, levanta! Vai ficar chorando feito uma bicha nojenta que gosta de dar a bunda?! É isso?! Vamos George, levanta!
O garoto parou de chorar, porém não levantou. O pai foi para dentro de casa, bufando. Os irmãos se aproximaram do menino – até em então, haviam observado a cena toda em silêncio – ajudando-o a se levantar.
Johann e Caroline se dirigiram a eles.
***
Eles haviam conversado com os meninos, lhes explicado muita coisa. Tornavam a caminhar pelas ruas da atual Londres, indo em direção ao aeroporto, pois já eram duas da tarde. Sim, definitivamente, voltar no tempo requer muito poder e concentração, e geralmente acaba adiantando algumas horas no relógio para quem viaja.
— O que pretende fazer? — ela perguntou, com as mãos nos bolsos de sua bermuda, o rosto emburrado. — Voltar no tempo e “consertar” todos eles? Existem bilhões, trilhões, – ou sei lá quanto! – de humanos no mundo, cara!
Ao passarem pela portas automáticas do saguão do aeroporto, Caroline e Johann avistaram os mesmos três rapazes conversando com o travesti que haviam agredido (em outra realidade) de um jeito amigável, e o que tinha apontado-lhe o canivete se aproximou, beijando-o delicadamente nos lábios.
Johann passou o braço em volta do pescoço dela, puxando-a para a fila onde comprariam as passagens.
— Se você topar, sim. Talvez nós consigamos. O mundo será bom. Sem essa podridão e maldade que você vê.
— Johann, desculpe estragar sua fantasia, mas o mundo sempre foi assim. Desde que o Mestre resolveu criar isso aqui, as coisas são do jeito que são. “A lei do mais forte”, sacas?
— Não. Mas ainda vou mudar o seu jeito de pensar. Você vai ver. Os humanos não são assim tão terríveis. Ainda há salvação.
— Por quê? Por quê está fazendo isso?
— Estou tentando salvar a minha Alma e a dos humanos. Vou ser lembrando como “Johann Melancolia, o Senhor que Salvou a Humanidade”.
Ela ficou quieta por um tempo. Quando faltava apenas uma pessoa para que chegasse na vez deles, a garota falou:
— Johann, não podemos fazer isso. Não é permitido. Quer dizer, sou a Senhora do Tempo, mas nem por isso tenho o direito de alterar o passado. Isso pode destruir o mundo!
— Mas...! Ah... — ele baixou a cabeça, com os olhos marejados. — Você está certa. Acabou. Eles estão perdidos. Nós estamos perdidos.
A atendente tinha um sorriso forçado e amarelo, e quando seu bafo entrou pelas narinas de Caroline, a menina teve certeza de que ela era uma fumante. Ela possuía olheiras tão escuras quanto as da Guardadora do Tempo, assim como uma espécie de auto-condenação guardada dentro de si que podia ser sentida por “Pierrot”.
— Olá, poderiam me dizer o destino de vocês, por favor?
A garota estendeu sua mão tão gélida quanto a de um cadáver e atravessou-a pelo vidro que a separava da humana fumante. Com a ponta do indicador, ela tocou-lhe o rosto sardento e cansado, fazendo Anne Liza – esse era o nome que estava escrito no crachá dela – encolher-se de medo. Arrepiada, apavorada.
— Você deveria parar de fumar. E ir visitar a sua avó também. Ela te criou sozinha com muita dedicação, tenha mais senso de gratidão. Leve uma torta de maçã, jogue conversa fora, você sabe que ela gosta disso.
Quando piscou, a atendente viu que as coisas estavam normais. Não tinham mãos atravessando vidros e nem olhos enigmáticos lendo sua alma. Só uma garota estranha e seu pai estranho. Apesar de que o homem parecia jovem demais para ser pai dela...
— D-desculpem... — gaguejou sem jeito. — Poderiam repetir o seu destino?
— Houston, Texas. — respondeu o homem. Seu rosto moreno estava em uma mistura de confusão e surpresa, como se estivesse vendo uma aberração diante de si.
— Muito bem, aqui está. — disse Anne Liza depois de ver o passaporte de ambos e a compra ter sido efetuada. — Boa viagem e obrigado por escolherem a...
E eles já não estavam mais lá.
***
— Por que você fez aquilo?! — ele perguntou agarrando o braço de Caroline.
— O passado nunca deve ser mudado, Johann. — a garota libertou-se do aperto dele, e continuou a andar pelo corredor que levaria até o avião — Com exceção aos caras homofóbicos, algo terrível poderia ter acontecido se nós atrapalhássemos o curso de alguma coisa maior.
Caroline colocara novamente seu gorro vermelho na cabeça, assim como seus óculos Ray Ban. Parecia uma motoqueira gótica agora, apesar de “só” ter 12 anos.
— O quê — ela levantou um dedo espectral — não quer dizer que nós não possamos alterar o futuro. Ele ainda não foi escrito, a cada dia os humanos o fazem e se seus passos não forem guiados com precisão, eles com toda certeza irão mergulhar no Abismo. E não haverá uma escada para que possam escalar de volta para a luz.
— Eu... Não era isso o que eu queria dizer. Puxa... você, você... Você ajudou aquela mulher!
— Você me convenceu a isso. Não vamos tocar no passado de ninguém, apenas ajeitar o presente. Ao menos tentar. É como dizem: tentare non nocet. “Tentar não prejudica”.
— Mas e se não der certo? Não temos certeza de que aquela mulher vai mesmo parar de fumar e ir visitar a avó. Não temos certeza de nada!
— Tempus est optimus judex rerum omnium. “O tempo é o melhor juiz de todas as coisas”. Vamos ver no que dá.
— Estamos dando o “direito da escolha”?
— Estamos.
— Ok.
Os dois entraram no avião e sentaram-se em suas poltronas.
Caroline consultou os relógios presos em ambos os braços, depois relaxou; sim, o tempo ainda estava seguindo conforme o curso.
Johann sorriu satisfeito; então, o mundo não estava perdido afinal. Ainda havia esperança.
E isso bastava.
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Curiosidades sobre o conto:
- Pierrot é uma personagem tipo de mimo e da Commedia dell'Arte, uma variação Francesa do Pedrolino Italiano. O seu caráter é aquele de um palhaço triste, apaixonado pela Colombina, que inevitavelmente lhe parte o coração e o deixa pelo Arlequim. Acessem o site da wikipédia se quiserem mais informações;
- O Arlequim é uma personagem da commedia dell'arte, cuja função no início se restringia a divertir o público durante os intervalos dos espetáculos;.jpg)