Olá,
Sou Jake T. (ou Jake Treze, pseudônimo esquisito, eu sei), escritora amadora, que busca escrever boas histórias e quem sabe (um dia) ser reconhecida por elas.
Eu não faço a menor idéia de como deve ser o primeiro post de um blog, acredito que deva ser alguma coisa extraordinária ou pelo contrário, simples demais, mas também duvido que isso faça muita importância, já que só depois de uns dez, ou quinze posts, alguém vai começar a ler isso aqui e (talvez) comentar. Porém, pode ser que eu esteja errada...
Enfim, como primeiro post, vou publicar aqui um dos meus contos preferidos, saídos recentemente das “trevas da minha mente”.
Conforme o tempo for passando, vocês, caros leitores, vão descobrir que eu tenho um fascínio – que pode-se chamar praticamente de “mórbido” e “doentio” – de colocar personagens aparentemente comuns em situações de alto drama e pressão, totalmente psicológicos. Grande parte do meu hall de personagens é composto por loucos, viciados em drogas, psicopatas paranóicos, seres fantasiosos perturbados, deuses problemáticos, etc... Aliás, eu adoro fazer personagens com problemas mentais.
Então não espere histórias levinhas por que eu não costumo sentar no computador para escrever esses romances melosos que se vê por aí – cruzes, tem uns livros por aí que matam gente por overdose de tanto açúcar, sério.
Mas chega de enrolar! Hora da história de terror básica.
SEGREDOS OBSCUROS
Sinopse: O conto apresenta o assassinato da filha dos Jakob (uma rica família aristocrata), como o ponto principal da trama. A narrativa alterna-se entre flashbacks na terceira pessoa ocorridos antes do crime e o ponto de vista atual de uma menina sarcástica chamada de “Lola”. Quando se pensa que tudo parece ter sentido, segredos são revelados e a verdade muita das vezes, provoca sérios efeitos colaterais.
— Hey, Lola! — disse um sujeito de cabelos crespos e pele escura. Ele estava sorrindo. Usava uma camisa escrito “I Love Tim Burton”. Ao seu lado, havia uma garota baixa, horrivelmente amarelada, usando roupas pretas e óculos escuros. Ela parecia ter saído de um conto de terror do próprio Stephen King.
— O que foi, Tom? — a tal de Lola falou virando-se para encará-lo.
— Foi muito irada a parte em que o cara de cabelo esquisito...
— O nome dele é Benjamin Barker, Tom.
— ... isso, isso! Bem, foi muito irada a parte que esse tal Barker joga a Sra. Lovett no fogo. Putz, eu amo o Burton e os filmes dele!
— Dá pra notar, afinal de contas, isso tá escrito na sua camisa!
Os dois caem na gargalhada, e nota-se que talvez a garota que parece uma vampira não tenha mais do que quinze anos.
Eu estou sentada no chão empoeirado, olhando na direção dele. Talvez ele não saiba que eu estou aqui, mas tenho a ligeira impressão que ele me sente.
Estava totalmente vestido de preto, e sentado numa poltrona cujo forro estava se desfazendo.
Nos encontramos no sótão de sua mansão. Um sótão que guarda muitos segredos...
Ele havia acabado de vir de um enterro. Tinha chorado no enterro, consolado os pais da “pobre vítima dos monstros que a sociedade criava”. Dizia que faria de tudo para mandar o miserável que fizera aquilo para o corredor da morte. E os pais debilmente falavam que “sim, sim, faça isso, por favor, senhor Maker!”.
Estou ficando com vontade de vomitar.
Tom e Lola estão seguindo pelo shopping calmamente, ainda falando sobre o filme mais recente de Tim Burton “Sweeney Todd — O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet”. Diziam o quanto Burton era genial e que Johnny Depp merecia o Oscar por ter cantado.
— Um dia, ele ainda vai ler meus roteiros, sabia? — comentou Tom orgulhoso.
— Você escreve roteiros?! — indagou Lola surpresa.
— Eu nunca tinha te falado? — a menina fez que não com a cabeça — Bem, eu escrevo sim.
— Posso ler um dia?
— Não acho que você vá gostar das histórias.
— Qual a melhor que você já escreveu?
— “Segredos Obscuros”.
— Puxa, nome forte. Sobre o que fala?
— Tipo, é a história de um cara que mata a melhor amiga e depois foge, por que não sabe o que fazer. Então a polícia começa a persegui-lo, até que no fim ele se mata.
— Nossa! Acho que o Tim iria gostar de um filme assim.
— Você acha? — pergunta o negro com um grande sorriso nos lábios.
— Dãããã!!! — fez ela dando-lhe um tapinha no braço. — É bem o estilo das histórias dele; dramática, que te faz ter vontade de chorar e ainda termina com um final triste.
Eles ficaram em silêncio por alguns segundos. Agora estavam parados na frente de uma joalheria.
Lola fitava fixamente um belo cordão cujo pingente era um coração de ouro partido. De sua rachadura escorria sangue de cobre vermelho.
— Por que ele a matou? — ela disse de repente, sobressaltando o homem ao seu lado.
— Eu não sei. — Tom deu de ombros. — Ele a amava muito, não consigo entender por que a matou.
— Acho que você não devia terminar o filme sem explicar por que ele a matou. Ia ficar estranho. — Mais um momento de silêncio, até que ela exclama: — Por acaso essa garota que morre é parecida comigo?!
— Bem, você serviu de inspiração pra ela — seu rosto escuro estava ficando corado, e ele visivelmente sem-graça pela descoberta da menina —, e o cara que a mata meio que sou eu.
— Toooom, você me matou! — ela falou fingindo horror e surpresa.
— Desculpe-me Lola! Desculpe-me!
E mais uma vez, os dois caíram na gargalhada.
Desci as escadas de forma calma, parando no último degrau e encarando uma mulher magra e alta de cabelos loiros, que lembrava em muito uma girafa e um homem baixo e gordo, semelhante a um hipopótamo.
Comecei a me sentir em um zoológico; minha família era um bando de animais.
E a girafa e o hipopótamo eram os meus pais.
— Não, não, não! — diziam dezenas de vezes. — Nossa pequena, Jake! Não podiam ter feito isso com ela. Vou matar aquele negro miserável!
Claro, claro. A queridinha deles. Jake... Eu sempre a detestei por ser tão fraca e mimada. Sempre a detestei por que eles a amavam mais do que qualquer coisa.
Dei as costas para aquela cena tão melosa e constrangedora; ambos estavam se abraçando, tentando confortar-se mutuamente.
Queriam conforto?
Dirigissem um daqueles carros que aparecem na propaganda do Volkswagen.
Aquilo sim daria conforto.
— Acho que vou levar esse. Não é bonito? — Lola agora segurava em suas mãos o mesmo cordão que há pouco enamorara na vitrine.
Tom pôs a mão no queixo e fitou o pingente de forma pensativa.
— Você é muito mórbida, sabia? — disse deixando escapar uma risada.
A menina fez uma careta e olhou ela mesma o pingente.
— Ah, fala sério! Isso não é mórbido. É uma forma diferente de arte.
— Certo, certo! Esse cordão é legal. Bem sinistro, mas legal.
— Eu sabia! — ela exclamou vitoriosa.
Voltou-se para a vendedora e disse:
— Embrulhe pra presente.
— É um belo pingente. — comentou alguém atrás de todos.
Lola e Tom voltaram-se na direção de um sujeito que erguia uma pulseira de diamantes no ar. Ele usava um terno caro e o cabelo castanho estava ajeitado com bastante gel.
— É. — fez Tom de forma surpreendentemente seca; ele não gostava daquele cara.
— Sou Steve Maker. — o sujeito estendeu a mão para Lola e ela a apertou. — Sou advogado. Trabalhei com o seu pai, senhorita Jakob.
— Tipo aqueles caras que defendem empresas?...
— Não. Eu trato de colocar os marmanjos na cadeia. E ajudo o promotor nos tribunais.
— Legal.
Ao contrário de Tom, nossa pequena Lola estava fascinada por aquele homem.
— Vou perguntar, apenas mais uma vez, senhor Thomas Turner: O senhor matou Jaqueline Jakob?
Eu estava definitivamente com raiva. Como podiam acusar Tom de matar aquela patricinha da Jake?
Parecia tudo um filme noir. Tom e o “policial mau” estavam em uma sala completamente branca, e outros peritos da polícia, inclusive o “policial bom” tomavam café assistindo a cena do meu amigo sendo interrogado, por um vidro que para eles eram transparente mas para quem entrasse na sala, seria apenas um espelho.
Eu cutuquei raivosamente um magrelo de óculos sentado ao meu lado.
— Ele é inocente! — exclamei, mas o magrelo nem me deu atenção. — ELE É INOCENTE, PORRA! — berrei com raiva, começando a chutar e socar o ar de tanta raiva.
Ninguém deu importância pra mim. Era como se eu não existisse.
Passado algum tempo, Lola e o senhor Maker eram grandes amigos. E Tom passou a se afastar dela, por que Lola não queria ouvir sua opinião a respeito daquele cara esquisito.
— Você está é com ciúme, Tom. — ela respondeu uma vez.
— Não estou não! Escuta, esse sujeito não é o que parece!
Os dois ficaram se encarando. Tom era o motorista da família Jakob, mas Lola nunca o tinha visto daquela forma. Eles eram amigos praticamente desde que ela nascera.
O telefone celular de Lola tocou. O identificador mostrava que era Steve.
— Se atender, nossa amizade acaba aqui. — ameaçou Tom.
Lola estendeu a mão e abriu o celular, colocando-o no ouvido.
— Alô?
Um forte estrondo foi ouvido; Tom havia batido a porta com muita força quando saíra frustrado do quarto da jovem.
— Não fui eu quem a matou. — repetiu Tom pela qüinquagésima vez.
— Você foi encontrado ao lado do corpo dela, coberto de sangue e com a arma do crime nas mãos. — disse de forma impassível o detetive August Mellok — Como quer que acreditemos que não foi você?
Tom ficou em silêncio, olhando para as próprias mãos. As duas estavam manchadas de sangue seco, e apesar de ser negro, ele podia ver cada linha com perfeição.
Não haviam deixado-o lavar as mãos.
— Ela sofria de múltipas personalidades, não é mesmo? — Tom assentiu. O detetive estava lendo o histórico médico da garota. — Aqui está dizendo que ela também tinha surtos de esquizofrenia...
Jake estava agachada atrás da mesa do escritório do pai. Ela havia colocado o capuz de seu casaco cor-de-rosa em cima da cabeça. Assim o homem malvado não a encontraria, não a reconheceria.
Por que o homem malvado sabia que a outra menina, — aquela que parecia muito com ela, que ela pensara que fosse sua gêmea, mas na verdade não era — só usava preto e se a visse de rosa, não ia saber que era ela.
—... e que tinha crises de pânico.
— É.
— Quais eram as personalidades dela?
— Só haviam duas. Suzan e Jaqueline Jakob.
— Qual delas era a verdadeira filha dos Jakob?
Tom deu de ombros, sem ânimo. — Ninguém sabe. Ela nasceu desse jeito. Nenhum tratamento deu jeito e os remédios não tinham efeito.
— Por que a chamava de Lola?
— Uma vez tínhamos visto aquele filme “Lolita”, sabe?
Eu fiquei chocada. Não escutei o resto da conversa.
Eu... Eu... EU ERA JAKE?!
Mas se eu era Jake...
— Não! Não! Não! — dizia Lola assustada. — Por favor, não faça isso!
— Sim! Sim! Sim! — retrucava ele sorrindo de forma assassina. — Vou fazer isso.
— Você não pode! Eu sempre confiei em você!
O homem ergueu a serra elétrica, puxando a cordinha que ligava o seu motor. A serra rugiu como um animal selvagem e ganhou vida em suas mãos. Os olhos negros dele reluziam, mergulhados em sua loucura. Na vontade louca de saciar seu desejo selvagem.
Um grito agudo preencheu o ar e depois, apenas o som da serra elétrica e de uma risada maníaca.
Eu corria assustada pelo cemitério.
O número da lápide de Jake era 1408.
Tipo aquele quarto das histórias do Stephen King. Na verdade, era uma infeliz coincidência que nós fossemos fazer a mesma idade que aquela lápide tinha.
Por que se você não notou: 1 + 4 + 0 + 8 = 13.
13 era um número azarado. 13 era o número da lápide de Jake. 13 era o número da minha lápide. 13 era o número da nossa lápide. Por que eu e ela éramos a mesma pessoa.
Parei na frente do nosso túmulo.
Eu nunca tinha desconfiado por que não haviam fotos minhas e de Jake juntas. Por que uma de nós nunca estava presente quando a outra estava. Eu sabia que Jake existia, mas agora notava que ela nunca deveria ter tido consciência da minha existência. Não sabiam qual de nós era a verdadeira, mas aposto que eles preferiam que fosse ela.
E agora ela estava morta. E eu também estava. Nós estávamos.
Por culpa dele.
Tive uma impressão ruim. Comecei a correr na direção da delegacia, quando de repente me dei conta de uma coisa: Eu era um fantasma então? Existiam fantasmas com dupla personalidade? Ah, certo, todo fantasma tem, tipo, tele-transporte via pensamento, né?
Eu pensei na delegacia e com um puf!, lá estava eu.
Na cela de Tom.
Com ele erguido por um cano acima do chão, com os cadarços do seu All Star em torno do pescoço. Enforcado.
Policiais gritavam ao meu redor.
Por culpa dele.
Steve havia ligado para Tom, mandando-o buscar Suzan. Ele jogou o celular descartável no lixo e entrou no carro, carregando um saco plástico com as roupas empapadas de sangue da sua mais recente vítima.
Ele tinha um álibi, caso alguém perguntasse onde ele estava 28 de outubro de 2009, entre às nove e às dez da noite. Mas ele duvidava muito que alguém perguntasse por ele.
Afinal de contas, Steve tinha uma ótima reputação e jamais seria visto como um suspeito. Já um motorista afro-descendente, abandonado pela mãe e maltratado pelo pai, que escreveu um roteiro onde praticamente falava como mataria a filha do seu patrão... Havia sido muito fácil, mais do que ele esperava.
Ganhara a confiança da garota e da família dela.
E iria condenar um inocente pelo crime que ele havia cometido.
A vida era boa.
Era uma pena que ele não soubesse, que os exames haviam deixado escapar um traço na personalidade de Suzan. Jaqueline podia ser a esquizofrênica paranóica, mas ela era a psicopata.
E uma bem vingativa...
Steve entrou em sua bela mansão, deitando-se no sofá de sua ampla sala de estar. Ser advogado até que servira para alguma coisa além de livrá-lo de situações difíceis.
Eu estava sentada ao seu lado.
Havia treinado alguns “pequenos truques” enquanto ele estava fora, bolando um jeito de condenar Tom.
Não, ele ainda não sabia o que havia acontecido na cadeia. O triste episódio em que meu melhor amigo se enforcara para não ter de se ver num tribunal, sendo condenado pela morte da pessoa que ele jamais pensaria em ferir. Os policiais ligaram para o celular dele, mas eu o havia tele-transportado para o local do crime antes mesmo que descobrisse que podia fazer aquilo. E como ninguém sabia o telefone da sua casa...
Ele estava tirando de dentro de sua pasta preta um monte de papéis, quando eu os chutei de sua mão.
Aparentemente, ele havia sido desastrado o bastante para deixá-los cair no chão.
Ri quando ele ficou paralisado olhando para as centenas de folhas brancas espalhadas pelo chão.
— Steve... — chamei num sussurro malicioso.
Ele se virou na minha direção, arrepiando-se. Não podia me ver. E isso agora era extremamente divertido.
Meu sorriso se ampliou de forma demoníaca, e eu apertei com mais força o cabo do facão que havia escondido por detrás de uma almofada.
Ia ser uma noite divertida.
†††
— Tem idéia de quem fez isso? — perguntou o detetive August para uma das empregadas do Steve.
— Não faço a menor idéia, doutor. O senhor Maker era um homem tão bom, ainda não consigo acreditar que alguém tenha feito isso.
Eu sorri de forma divertida.
Estava sentada no sofá branco manchado de sangue, olhando minha bela obra de arte: Steve estava completamente deformado. Eu o havia torturado de todas as formas possíveis e depois esfaqueado dezenas de vezes.
Não estava uma coisa muito boa de se olhar, se você não tem estômago.
— Detetive Mellok — chamou um jovem policial de cabelos pretos — encontramos isso no sótão da casa.
Ele estendeu com uma mão enluvada, aquilo que parecia ser uma carta.
— O que é?
— Aparentemente, uma confissão do Maker de que ele teria assassinado Jaqueline Jakob, assim como outras doze garotas.
— Bem, parece que isso explica algumas coisas. Mas deixa outras perguntas abertas...
Eu saí da mansão. Estava uma linda tarde na minha opinião, nublada e cheia de nuvens negras.
O medalhão de coração partido reluzia em meu peito.
E era assim que deveria ter terminado a história de Tom. Quando eu encontrar o manuscrito do roteiro dele, talvez eu o envie para Tim Burton.
É. Talvez eu faça isso mesmo...
Adorei o conto. Você escreve muito mesmo!
ResponderExcluirÉ um prazer ser o primeiro fã.
Grande Abraço.
Valeu pelo comentário Eryck.
ResponderExcluirOrgulho tenho eu em justo você ser o meu primeiro fã!
Bjs,
Jake T.