terça-feira, 18 de agosto de 2009

O Circo Sem Risadas

O circo costuma ser visto como um lugar onde as pessoas encontram um mundo mágico e cheio de sorrisos. No entanto, contrariando todas as crianças comuns (como sempre), eu nunca gostei de circo durante a infância. Principalmente de palhaços. Eles me davam medo...
Pareciam bonecos que tinham criado vida com suas perucas coloridas e as bocas vermelhas, rindo sem parar, às vezes sem motivo algum. O medo passou - como a maioria das coisas na vida -, mas eu continuei sem gostar de circo.
Até ver o Circo de Soleil. Quer dizer, só umas partezinhas né, por que eu não sou rica pra bancar esse espetáculo de gringo (mas um dia... Ah um dia! Vou em todas as apresentações que eles fizerem, vocês vão ver!)
Enfim, só estou falando isso para vocês, por que um dos meus primeiros contos de terror/fantasia/drama - escrito aos 10 anos de idade, cujas alterações feitas foram apenas na parte gramatical (estava um horror, fiquei até com vergonha de mim mesma) - chamado "Apenas Uma Alma Perdida", passa-se dentro de um circo.
Espero que curtam e comentem!

APENAS UMA ALMA PERDIDA

Sinopse: A história começa a ser narrada por uma personagem sombria, cujo nome é desconhecido (aliás, sintam-se à vontade para deixarem nos comentários sugestões de nomes, pois estou pensando em fazer uma continuação do conto), falando sobre o circo e sobre sua vida. Ao contrário de Segredos Obscuros, aqui, vocês vão descobrir o sentido da palavra "perdão". Mas isso não é uma narração comum de uma garota comum, então a palavra "medo" também surgirá, e sua visão através de olhos inocentes pode ser mais perturbadora do que se imagina.

O crepúsculo está começando. A melancolia nesse momento é algo que eu nunca vou poder comparar. A ida do dia, e a chegada da noite fria e escura. Eu não gosto da noite. É uma coisa tenebrosa demais pra mim.

A lona do circo será desmontada amanhã, o que quer dizer, que logo, eles vão embora, e eu vou ter de acompanhá-los. Um palhaço bêbado passa na minha frente, balançando uma garrafa de vodca, e cantando algo indecifrável. Sua voz é desafinada, e rouca, o que para um homem vestido de palhaço, apenas o torna mais engraçado, e cômico do que já era com a cara pintada.

Eu gosto da felicidade.

Gosto mesmo, é algo que me deixa leve sabe? Assim que o palhaço passa, me levanto e caminho até chegar ao centro do picadeiro. Olho para o circo todo, e percebo que ainda consigo imaginar o cheiro da pipoca, e do amendoim, e dos refrigerantes, que eram vendidos à platéia. Ainda consigo imaginar as pessoas aplaudindo, quando passavam homens de cartolas que tiravam destas, coelhos brancos e felpudos, ou o modo como faziam “Oh” quando mulheres com roupas coloridas montavam imensos elefantes cinzentos. Não. É melhor parar. O passado é perigoso, e doloroso demais.

Uma menina entra no picadeiro. Pergunto-me, quando isso vai ter um fim, mas não sei ao certo. Ela pára. Está a dois metros de distância de mim, mas é óbvio que não consegue me ver. Ela aperta um coelhinho marrom nos braços, e vendo que não conseguiria nada, corre até a entrada, onde sua babá a esperava.

Ela não pode me ver...

Por que ela não pode me ver? Muitas vezes, penso nesse assunto, mas toda vez, chego à conclusão de que é melhor assim. Pode ser um pouco solitário, e de vez em quando, até mesmo perturbador, mas você acaba se acostumando com a idéia. A idéia de estar sozinha. Mesmo com a menina, ou o palhaço de pileque, eu ainda estou sozinha...

Há muitos anos atrás, o meu corpo frio e sem vida havia sido deixado onde ela estava parada alguns segundos atrás. Não éramos do tipo de circo que fica parado. Éramos (e ainda somos) o tipo que viaja para todo tipo de cidade, e, no entanto, sempre volta para o mesmo lugar. Cada pedaço de madeira está fixado no mesmo pedaço de terra em que estava nos cinco anos anteriores. E apesar da terra ter sido bem apalpada pelos pés dos trabalhadores depois de tanto tempo, eu ainda posso ver a linha branca que os policiais marcaram em volta do meu corpo.

Não é fácil você notar que está morta. E que a pessoa que a matou era a última pessoa que você imaginava poder fazê-lo. Meu pai me matou. Ele usou um dos canos de ferro que compõe a armação da arquibancada, aquelas dezenas de degraus em que o público se senta. Está vivo até hoje, mas seu estado de saúde — tanto física quanto mental — não é mais o mesmo desde que ele atravessou o cano pelo meu peito.

Acho que ele se arrepende do que fez.

Verdade ou não, eu nunca poderia sentir raiva dele. Era o meu pai. Um homem confuso, cuja esposa havia abandonado-o para viver com um malabarista dez anos mais novo que ele. E que uma semana antes de assassinar sua filha, descobriu que esta não era sua, e sim do maldito malabarista. É muita informação pra ser absorvida de uma hora pra outra. Tinha de ter um efeito colateral.

E teve.

Papai não foi preso, pois os psiquiatras da polícia afirmavam que ele estava incapacitado mentalmente no momento que me matou, e que não sabia o que fazia. Eles estavam certos. Ele não sabia o que fazia. E eu não nutro remorso algum por ele, sério.

No entanto, não posso mentir dizendo que gosto de fazer isso. Que gosto de fazer aquilo que toda alma perdida faz enquanto não encontra seu caminho: repete sua morte. Todo dia. O mesmo ato. Eu caio. A barra de ferro pode ser vista através de mim. O sangue gotejando nas minhas sapatilhas cor-de-rosa. Eu queria ser bailarina feito a minha mãe. Não importa pra onde eu vá, o ato sempre se repete. E eu particularmente, prefiro encenar minha morte em um lugar conhecido como esse circo do que no meio de um deserto verde.

Uma trapezista pára na minha frente, olhando para cima, e verificando o seu trapézio. Sua roupa é branca, e eu gosto disso. Brilha com algumas lantejoulas douradas. A maquiagem realça seus olhos verdes.

Eu aceno bobamente para ela.

Ela não acena de volta pra mim.

Sei que se pudesse me ver, ela acenaria. Mas a questão de tudo é, por que eu aceno? Não sei dizer, parece ser divertido, ter uma última esperança de que alguém vá retribuir o meu gesto. Ninguém nunca retribuiu depois que eu fui morta. Nem nunca vai retribuir. Mas eu vou estar lá, acenando para milhares de pessoas, quando na verdade eu sei... que sempre vou estar sozinha.

Um dos funcionários do circo desliga a luz, deixando-me no escuro total. Eu fico parada. O chão é frio quando eu caio nele. Gosto da luz. O escuro me deixa agoniada. Trevas. Sinto o sangue escorrendo pelo buraco aberto em meu peito.

Minutos depois, a agonia termina.

Se você pudesse me ver, veria a expressão de uma menina de 9 anos, usando roupas de bailarina manchadas de vermelho, sempre infeliz.

O que me deixa tão infeliz, não é saber que eu estou morta. É saber que eu nunca vou encontrar o caminho para sair desse purgatório.

3 comentários:

  1. Acredito piamente que a melancolia e a solidão são as chaves para tua inspiração. Na verdade a tua incrível habilidade para escrever. Eu juro que com apenas o teu primeiro conto, pensei na sua capacidade de impactar, chocar e surpreender o leitor.
    Adimirei teu trabalho e tive certeza que se algum dia em precisar de alguém para me acompanhar nesta ardua e solitária estrada da literatura, sei que você estará lá...
    Mesmo que sozinha.
    E que eu não possa te ver.
    Parabéns.
    Te convido futuramente para o primeiro "crossover" no Multiverso Ovolun.
    Abraços.

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  2. E sabe de outra coisa.
    Acharia legal você criar séries sobre os mesmo personagens. Sempre da continuidade, para que nós leitores possamos nos aprofundarmos mais nas personalidades de cada um deles.
    Magníficos eles são, todos eles.
    Gostaria de te indicar um livro:
    "O Sucesso de Escrever", editora corifeu.
    É como se fosse uma lanterna para atravessar a noite mais escura.
    Abraços.

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  3. Não se pode esquecer do mal. É um dos elementos que eu mais gosto, apesar de a solidão ser a única que está presente em todos os meus protagonistas.
    Não sei se vou conseguir escrever uma continuação para "Segredos Obscuros", mas imaginei que poderia dar um final mais feliz para a garotinha do circo - apesar de adorar colocar os meus personagens pra comer o pão que o diabo amassou, eu também tenho que dar um pouco de alegria a eles, não é?!
    Espero que você esteja certo quanto ao futuro literário, mas o jeito é só esperar pra ver. ^^
    Ouvi falar do livro e prometo procurar.
    Valeu, Eryck.
    Bjs,
    Jake T.

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